A Era do sabor
⚠️ Tem algo errado no seu chocolate — e não é só o preço. Por Dua Araújo
Eu costumava gostar muito da Páscoa. Todo final de março era uma festa de chocolate nas gôndolas do supermercado e em casa.
Páscoa me lembrava a infância…
Eu já me preparava para admirar os ovos de Páscoa.
Ovos de diversos tamanhos, formatos e propostas eram dispostos de forma criativa pelo time de Merchandising.
Ovo de pistache? Tem.
Ovo de morango? Também tem.
Mas você reparou em uma coisinha que tem sido diferente?
Ultimamente, tenho essa nova mania de ler os rótulos, tabela nutricional e todas as informações disponíveis na embalagem — Sim, eu leio tudo isso, caro leitor — e muitas vezes desisto da compra.
Afinal, eu atuo no Marketing e sei das armadilhas que existem quando falamos de embalagem de produtos.
Foi nessa leitura de tudo na embalagem que percebi que nossa alimentação está na era do sabor. Temos…
sabor chocolate,
sabor morango,
sabor baunilha,
sabor pistache e até
sabor energético.
“sabor... alguma coisa”
Virou meme nas redes sociais — “sabor... alguma coisa” que todo mundo reconhece. E essa novidade chegou até mesmo ao nosso querido ovo de Páscoa.
Não é por acaso que chegamos até aqui. A produção mundial de cacau enfrenta uma grave escassez — e o cultivo no Brasil também foi afetado: a Bahia teve enormes áreas de plantação dizimadas por pragas e condições climáticas adversas.
A indústria não perdeu tempo.
Se o cacau ficou caro, o lucro não podia esperar — e nós consumidores, bem, parece que ninguém lê embalagem.
O ovo de Páscoa virou “sabor chocolate” e ninguém fez escândalo. A Páscoa não é a mesma. Nem cheiro de chocolate tem.
Mas será que parou por aí?
Olhe à sua volta: quantos produtos na sua despensa tem “sabor de... alguma coisa”?
O ovo de Páscoa foi só o espelho mais colorido de um mundo que há muito tempo aprendeu a vender a promessa do real — sem o real dentro.
O sabor que sobrou?



